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[Nintendo DS]
Phoenix Wright: Ace Attorney

Análises > Análise
Análise escrita por: Adriano Benedito Pasquini
A franquia Ace Attorney completará uma vindoura década no ano que vem e, como saldo positivo, angariou sucesso de público, crítica, conquistando uma legião de fãs. Tal conquista se fundamenta, de maneira particular, em duas linhas: quebras de convenção e mutualidade  alicerçada entre jogador e jogo.

Não se trata aqui apenas de visualizar um jogo somente por suas mecânicas de gameplay, apontar seu aspecto linear de narratividade com crítica, mas não como defeito sumário, sendo algo totalmente relevado diante das inúmeras qualidades que o jogo ostenta dentro de sua premissa. Ace Attorney surgiu no GBA como algo até que surpreendente: que nos fizesse, com seu visual com traços característicos de animes japoneses, em algumas tomadas de cena típicas do estilo graphic novel, enxergar parte verossímil com a realidade em algo que sabemos, a priori, tratar de um universo fictício.

Investigações e tribunais, tribunais e investigações. Poderia parecer uma rotina maçante entre os quatro casos comuns à versão para GBA e o quinto, inédito para Nintendo DS. Entretanto, os infindáveis diálogos, sem dublagem (leitura intensa é exigida) concedem, de forma majestosa, suspense, emoção e, principalmente, exarcebadas quebras de protocolos da convencionalidade ancorados em sua jurisdição gamística. No entanto, algumas diretrizes do direito também se encontram aqui e isso que faz de Ace Attorney um jogo convincente. Ele consegue satirizar, mas ao mesmo tempo propôr pensamentos reflexivos acerca da própria prática da Justiça.

" E posso dizer que um dos méritos de Phoenix Wright é fazer do jogador um profissional da área jurídica, com todas as sensações e contradições envolvidas. Quando jogo PW tenho um desgaste emocional muito grande, talvez por atuar na área.

Creio que a série pode ser fonte de reflexão sobre vários aspectos do nosso sistema jurídico, como a celeridade da justiça, a presunção de inocência, ética, fundamentação jurídica, entre outros."
Vinicius Martins (VilicoBRA) advogado e membro do Wii Brasil

Usar de seu inventário (o Court-Record) para fins de interação se mostra algo recompensador, principalmente nas interações com os personagens. No Nintendo DS, é possível usar a stylus para navegar entre sucintos perfis de pessoas ou dados sinteticamente postos, tudo com o intuito de análise. Por usar de um sistema em primeira pessoa e localidades ser acessadas através de menus, é latente a sensação de estar preso. Mas este confinamento em gameplay é recheado de interações discursivas sólidas, hilariantes, decisivas no que se refere ao prelúdio dos tribunais. As caixas de diálogos ganham vida praticamente. Elas aceleram e "vibram" denunciando um dizer exasperado. Letras aparecem de forma vagarosa em falas tristes. Como dito, não há dublagem e isso estimula o pensar imaginativo de quem é testemunha das enunciações que o jogo proporciona.

Só não pense que essa dita linearidade facilita as coisas no processo investigativo. Há alguns, mesmo que poucos, momentos em que o jogador pode ficar travado ante tal cena. Pode ser comum esquecer de interrogar mais uma vez determinado personagem. Dependendo da fala deles em uma mostra específica de algum artefato do Court-Record, novas perguntas poderão surgir no intuito de elucidar um mistério. Elas também são realizadas através dos menus. Estes menus apresentam opções tanto para locomoção entre os cenários quanto para os citados questionamentos, examinar a área em que está presente e mostrar algum item ou personagem. Inegavelmente é um jogo que aguça espíritos curiosos. E isso é habilmente complementado com a exploração dos cenários. Note que se trata de um jogo textual e contextual, portanto, não se intimidar em explorar tudo poderá propiciar a descoberta de falas que, além de trazer mais detalhes para as ricas histórias, apenas estão ali para arrancar algumas risadas e Ace Attorney, no alto de sua excentricidade, tenta, e com sucesso, consolidar as mais diversas manifestações em personagens dotados de originalidade.

Seguir os passos de um advogado que não tem receio de ser simples, divertido, de se impôr como um personagem rico em detalhes intrínsecos a, por exemplo, sua formalidade sintetizada no terno e em seu ofício que provoca antítese com seu penteado. O jeito de ser de Wright também é paradoxal. Piadas dotadas de sarcasmo, principalmente em seus pensamentos representados por letras azuis, mesclam-se com momentos de seriedade reflexiva e de lógicas dedutivas, principalmente no tribunal, o coração pulsante deste corpo que é o jogo em sua constituição.

Intrigas, traições, confrontos. Eis algumas das evidências que fazem dos tribunais o clímax do jogo e o complemento crucial das investigações. Aqui os procedimentos também são bastante lineares. Advogado de defesa e promotor se apresentam, testemunha é chamada, esta dá o seu depoimento e o Cross-Examination (ápice dentro do clímax) é executado. Este último trata-se dos derradeiros embates entre defesa, promotoria e testemunhas. No entanto, o que chama a atenção não é a estrutura, mas o uso dela e sua subversão.

O juiz pede a ordem, mas ela se delineia através da desordem, aí chegam-se às lógicas argumentativas. Interessante notar o comportamento de muitas das testemunhas, dos criminosos, daqueles que julgávamos inocentes. Alguns dos casos, nos seus minutos iniciais aparece o crime sendo executado e, portanto, seria crível que os culpados já seriam conhecidos. De fato, isto acontece. Mas o que instiga é saber as motivações de cada um envolvido em um determinado conflito. A cada nova argumentação, a cada revés da promotoria, tudo parece estar em sintonia com os atos comportamentais dos personagens. Eles começam calmos, transparecendo inocência, mas a máscara cai, só que aos poucos, e suas expressões faciais contribuem para lhes conferir riqueza de estilo.

Ser arrebatado por praticamente um anti-climax no segundo caso é impactante. Configura-se em uma quebra de um ritmo, o qual muitos poderiam pensar que se seguiria de forma "normal" depois do primeiro caso, onde Phoenix era apenas um estreante nas cortes com o auxílio de sua mentora, a advogada Mia Fey. Tal acontecimento que causara impacto, dá vazão para as partes místicas, espirituais do enredo e de um sentimento fraternal, no caso entre irmãs, que curiosamente, lá longe, no quinto caso, nos deparamos com algo um pouco parecido e com cenas que nos fazem lembrar daquele caso tão anterior, mas tão próximo no jogo. Steel Samurai mostra no terceiro caso que, apesar de seu drama no percurso do enredo, é possível até um herói dentro da história se eternizar de tal modo que uma das melodias mais celebradas do jogo ser de sua música tema, a qual transforma-se até em ringtone. O quarto caso se configura praticamente como um épico (em duração e em carga emotiva) que envolve Wright, o promotor principal Miles Edgeworth em situação adversa, no banco dos réus, em confronto com seu tutor Manfred von Karma. As reviravoltas neste, o conhecimento através de um rápido flashback da infância de Wright e Edgeworth nos mostram como o primeiro se configura uma figura realmente picaresca, a qual na adversidade se mostra capaz de conseguir que tudo dê certo.

Ser refém das decisões pode parecer redundar em um gameplay em linha reta, contudo ele estimula o seu receio e/ou satisfação na hora de, por exemplo, pressionar um botão de comando e dizer "Hold It!", "Take That!" ou "Objection!". Algum laço criado poderá fazer o jogador recuar (vide o quinto caso) ou em outra situação fazer com que a verdade apareça e o jogo de aparências seja dizimado. Em momentos decisivos, não é possível salvar o progresso, como no exato instante da mostra de mostrar uma evidência. Fora isso, o ato de salvar o progresso é livre, e ele testa a sua capacidade de apreensão em tentar antever o que virá ou de sentir, através das falas ou até mesmo da ótima trilha sonora, o momento de certo de salvar o jogo, sem temer que a penalização do juiz, que pode redundar num fracasso da defesa e num Game Over, possa atrapalhar diante do processo.

O início da série Ace Attorney configurou-se como uma mostra do que viria a seguir. Reconhecimento através dos fãs, de uma orquestra própria para a trilha sonora, mas não no game, que, dentro de si, a sustenta de um jeito que nos faz lembrar dos tempos de SNES onde muitos dos compositores conseguiam fazer peças musicais milagrosas com pouca capacidade de hardware. A versão deste jogo para Nintendo DS adiciona elementos íntimos de seu hardware para a mecânica de jogo. A manipulação dos menus via stylus pode ser até dispensada, mesmo sendo útil, mas alguns recursos são recompensadores, como o já mencionado suporte ao microfone que também está presente  nos dos créditos finais do último caso, que "brinca" com um dos recursos tecnológicos da assistente de Wright e eis que, num passo de interatividade, sela algo que, principalmente por uma narrativa que aproxima ficção e sensações humanas em estímulo, faz de Phoenix Wright um personagem único e do primeiro título desta franquia algo que aproxima jogador ao jogo de uma maneira emblemática, típico de um clássico em sua gênese, como poucos.

100%

recomendação



Comentários
green moon
09/05/2010 às 00:46
eu joguei a versao do wiiware e me surpreendi com a qualidade do jogo(RedNiNero tua culpa eu ter comprado e me viciado nessa franquia) estou ancioso para compra os outros do wiiware , otima analise muito bem escrita mais para min a melhor franquia nesse estilo continua sendo trauma center(ancioso pelo trauma team q ate fiz a pre-order)
Anfetamina
26/04/2010 às 18:11
Meu Deus, esse jogo é muito bom... é a unica coisa que o Direito tem melhor que a Medicina :~ quase que chorei quando zerei... recomendadíssimo. Ótima review red, pra variar! kkkk
redfield jr.
25/04/2010 às 13:43
Obrigado aos que leram até aqui.
O jogo realmente é excelente.
Na realidade, todos os jogos da série primam por tal excelência, mas este, além de ser o primeiro, consegue fazer tudo, mas tudo mesmo de forma espetacularmente competente.
Por ser o primeiro, ele é o jogo que causa o "impacto" que infelizmente muitos, na maioria que se acham críticos, mas curiosamente não parecem jogadores de videogame, não souberam dar o devido reconhecimento.

PS: Comecei a jogar Apollo, acabei o primeiro caso e, meu Deus, fenomenal.
Não chega a ter o mesmo impacto desse primeiro jogo, pois a estrutura é similar, mas no enredo ele é impactante sim.
Me surpreendi com o final do caso e... a Trucy é muito fofa! (mas a Kay ainda ganha hehehe)

E Capcom: Cadê o nosso Gyakuten Saiban 5???? hehehe
VilicoBRA
25/04/2010 às 09:39
Haha! Que nada, RedNiNero! Vocês aqui é que costumam ser uns tarados!

As músicas orquestradas são realmente muito boas. Estou sempre ouvindo essa trilha e a de Galaxy no carro.
RedNiNero
24/04/2010 às 14:32
OMG O VILICOBRA É ADVOGADO?!
Huahahaha que foda!!!
O advogado taradão!

Redfield espero que esse teu excelente review faça quem não jogou ainda a jogar.
Salvei essa música a minha lista de reprodução do Youtube hehe.
Tears of The Dragon
23/04/2010 às 11:44
Soh perde pra Zelda
shadowhero
22/04/2010 às 20:29
Uma das melhores séries ja criadas EVER
pidg_ultimate
22/04/2010 às 19:57
Realmente, Phoenix Wright talvez seja uma das melhores séries de jogos atuais, SE NÃO FOR A melhor.
-Link-
22/04/2010 às 17:44
Ah, eu tenho essa música orquestrada no meu cel, é muito bem feita

BTW, boa análise
tales of mana
22/04/2010 às 15:57
Só empata com o Miles Edgeworth.

EMPATA Ó!
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