Nunca antes as diferenças entre jogos ocidentais e japoneses ficaram tão em evidência como nos últimos anos, e o motivo disso é bem simples: enquanto os mercados do oeste crescem como nunca, a antes auto-suficiente indústria oriental agora enfrenta uma pesada crise existencial, de forma que as publishers se veem obrigadas a correr atrás de públicos estrangeiros para darem lucros comparáveis aos de outrora. E na batalha pela aceitação no Ocidente, estas empresas acabam sacrificando algumas tradições de suas maiores franquias para torná-las mais atraentes para jogadores mais acostumados com jogos de ação.
A Square Enix fez
Dragon Quest, uma das mais tradicionais séries de RPGs japoneses, passar por esse processo de transformação, e, indo contra a tendência, o resultado,
IX: Sentinels of the Starry Skies, foi um sucesso estrondoso em seu país de origem. Fãs ignoraram o fato do jogo ter abandonado algumas das principais marcas da série - como batalhas aleatórias e a função "party talk" - e abraçaram o seu foco no multiplayer portátil, popularizado por outras franquias como
Pokémon e
Monster Hunter, fazendo com que o título atingisse números absurdos de venda e se tornasse o lançamento mais vendido no Japão em 2009, e mais tarde um dos mais notáveis novidades da Nintendo para o DS em 2010 no resto do mundo.
Logo após selecionar a opção "New Game" na tela de título, o fã da série é surpreendido com algo que ele provavelmente nunca tinha imaginado que veria em um
Dragon Quest: uma tela de criação de personagem. É possível selecionar penteados e expressões diferentes, e alterar o tom da pele e a altura do herói, que você logo descobre ser um anjo - ou melhor, um Celestrian. Habitantes de uma fortaleza flutuante, estes seres alados observam e cuidam dos humanos na esperança de que um dia a gratidão dos mortais faria com que da grande árvore Yggdrasil brotassem frutos, elevando os protetores para perto do Almighty - o todo poderoso. Eis que tal dia chega, mas algo dá muito errado, e um desastre faz com que o herói caia - sem suas asas e auréola - no mundo abaixo, com apenas uma pequena parcela de seus poderes divinos.
A partir do momento em que sua jornada tem início, fica claro o motivo pelo qual, apesar de tantas mudanças, o jogo ainda conseguiu conquistar a adoração dos fãs das antigas: todo o charme simplista dos mundos criados por Yuji Horii foi traduzido perfeitamente pela Level-5 para o DS. Apesar de as batalhas serem apresentadas em excelentes gráficos tridimensionais, com câmeras dinâmicas mostrando a ação por vários ângulos, estas funcionam de uma forma semelhante à como elas funcionavam 24 anos atrás no Famicom. Apesar de CGs serem perfeitamente possíveis no DS, o jogo ainda prioriza a exibição do desenrolar dos eventos por suas excelentes e marcantes sequências de diálogos, que concedem legitimidade ao mundo por retratarem, por exemplo, o sotaque costeiro dos habitantes de uma vila de pescadores. Enfim: o caráter nostálgico da série, que remete aos antigos RPGs de texto, agradável por não forçar a barra como um
3D Dot Game Heroes, foi mantido em perfeita harmonia com funções modernas como um serviço de download de missões e o multiplayer wireless.
As novidades, porém, não vieram sem consequências negativas. O foco no multiplayer, por exemplo, eliminou os companheiros com fundos históricos e envolvimento na trama, substituindo-os por personagens gerados aleatoriamente sem qualquer personalidade que são usados na ausência de amigos de carne e osso, e por tabela o "party talk" e qualquer possibilidade de envolvimento emocional do jogador com suas marionetes - exceto talvez no meu caso, já que fui presentado com um Mage xará para meu grupo. A mudança para o portátil, por sua vez, fez a série regredir no sentido de que, enquanto em
Dragon Quest VIII, para o PlayStation 2, o mundo era vasto e envolvente ao ponto de utilizarem seu exemplo como comparação com
Final Fantasy XIII, em
IX o mundo tem uma escala muito menor e maioria de suas vistas não inspiram grandes impressões.
Não se engane: apesar de o mundo passar a impressão de ter um caráter de miniatura, sua aventura nele será verdadeiramente duradoura. A jornada principal do herói dura várias dezenas de horas, mas o jogo não termina aí: só para começar, existem 120 sidequests que podem ser completadas incluídas no cartucho pela obtenção de itens raros. Depois, é possível partir em uma jornada para completar a sua lista de itens e equipamentos, ou até mesmo para obter e completar todas as quase 500 receitas de alquimia presentes no jogo. Ainda dá para correr atrás de todos os "accolades", que são como achievements concedidos aos jogadores que cumprem determinadas tarefas, como matar uma quantidade determinada de monstros. E por fim, os jogadores podem visitar a DQVC, conectando-se à Nintendo Wi-Fi Connection, para baixar mapas do tesouro, que abrem passagem para cavernas secretas espalhadas pelo mundo inteiro, que podem incluir inimigos únicos, itens especiais ou chefes de dificuldades elevadíssimas - incluindo até mesmo oponentes de capítulos anteriores da série. O melhor? Esses mapas são literalmente incontáveis, pois, com exceção de alguns especiais, eles são gerados aleatoriamente pelo jogo.
Como já foi dito, o sistema de batalhas do jogo é, em essência, um velho conhecido de qualquer um que já teve em mãos um JRPG básico. A cada rodada, você seleciona os movimentos de cada um de seus personagens, e em seguida eles realizam tais ações em turnos - exatamente como os inimigos. Os comandos são escolhidos com a Stylus ou os botões, e a luta em si se passa na tela superior do portátil. Dentro das batalhas, apenas dois fatores se mostram diferentes do que é costumeiro na série: a existência de um pequeno sistema de combos, que multiplica o dano de ataques físicos dados em sequência, e de buffs especiais chamados "coups de grâce" (golpes de misericórdia), que concedem bônus diferentes dependendo da classe do personagem. Fora dos combates, porém, há uma notável diferença: é possível ver seus inimigos no campo antes de enfrentá-los (exceto quando você está navegando), de forma que, com um pouco de cautela, é possível esquivar-se de conflitos desnecessários naquelas horas em que seu grupo está enfraquecido.
A mudança citada no parágrafo acima veio como consequêcia do modo multiplayer do jogo, que é seu grande atrativo e o principal fator que faz com que ele se destaque na multidão de RPGs disponíveis para o DS. Aberto o portal mágico que conecta o seu mundo a outros, heróis de amigos podem visitá-lo para enfrentar os desafios do jogo ao seu lado, ou então para explorar livremente o seu mundo em busca de baús de tesouro azuis, que podem ser abertos por hospedes. A liberdade existe: e é incentivada pela existência do comando "Call to Arms", que possibilita ao hospedeiro chamar seus amigos para seu auxílio quando ele precisar, e do sistema de batalhas abertas, que permite que qualquer um entre em uma batalha que estiver acontecendo no campo a qualquer momento. Cada amigo atua como um companheiro do grupo de seu herói, com a diferença que, durante um embate, quem controla tal personagem é seu próprio dono. Infelizmente, o progresso no mundo dos visitantes não é influenciado por suas ações no mundo dos outros - mas ele leva consigo para casa todos os itens, equipamentos, experiência e dinheiro que obteve em um passeio além do portal, de forma que ajudar um amigo é algo que sempre é recompensado.
Uma outra opção de conectividade existente no jogo é o Tag Mode, que virou alvo de muitas discussões desde o lançamento original deste em 2009 no Japão. Seu uso fez com que
Dragon Quest IX entrasse no livro dos recordes mundiais, e até mesmo inspirou Shigeru Miyamoto, que disse ter sido influenciado pela função no anúncio do Bark Mode de
Nintendogs + Cats e de uma função semelhante para o 3DS. Com ele, portáteis fechados e em modo de repouso trocam automaticamente informações entre si, passando de um cartucho para o outro dados sobre os times utilizados pelos jogadores e até mesmo mapas de tesouro raros. Infelizmente para nós brasileiros, habitantes de um país tão grande, este modo é de pouca utilidade - pois só mesmo em eventos para darmos a sorte de cruzar com alguém com um DS nestas condições.
Outro fator de grande peso em
Dragon Quest IX é o modo de personalização completa de seu herói e seus companheiros. Além das opções da tela de criação de personagens, é possível alterar o visual de seus guerreiros alterando seus equipamentos - algo raro até mesmo em RPGs para consoles de mesa. Todos e quaisquer itens equipados, desde os sapatos e luvas até as armas, possuem aparências únicas, e contribuem para que você participe ativamente na criação de seu grupo. Além disso, é possível trocar a vocação - a classe - dos heróis, escolhendo entre as clássicas Warrior, Priest, Mage e Thief, as não tão comuns Minstrel e Martial Artist, ou então seis opções de vocações avançadas, que precisam ser liberadas por meio de sidequests, como Gladiator e Sage.
Dragon Quest Monsters: Joker já tinha gráficos que causavam uma impressão marcante no DS em 2006, e
Dragon Quest IX constrói seus belíssimos visuais em cima desta base. O mundo 3D é um dos mais variados e coloridos existentes no DS, e os modelos são provavelmente os mais bem detalhados do portátil - tanto que, curiosamente, quando há muitos deles na tela simultaneamente, a taxa de frames por segundo cai consideravelmente. Para remediar tal problema, a Level-5 encontrou uma engenhosa solução: apenas personagens importantes são representados em 3D, enquanto os NPCs de menor importância, como vendedores ou figurantes, são vistos na forma de sprites no estilo dos remakes dos jogos de Super NES da série - algo que funciona muito bem, e não causa estranheza alguma.
Curiosamente, apesar de ser um jogo de polimento praticamente impecável,
IX peca quando o jogador opta por utilizar a Stylus ao invés dos botões, ou de uma mistura dos dois, como método de controle. Em primeiro lugar, a interface de seleção baseada em textos, e não em ícones, somada ao fato de que seleções com a Stylus devem ser feitas com dois toques, e não apenas um, torna inconveniente o uso da canetinha durante batalhas ou diálogos. E para piorar, ao invés do simples e eficiente esquema de "aponte e clique" empregados pela maioria dos jogos do DS que se passam na tela sensível ao toque,
IX usa um arcaico "clique e arraste", desconfortável e desestimulante, pois a vista fica coberta por uma enorme flecha azul enquanto você se movimenta.
A escolha do Nintendo DS como a plataforma-alvo para o nono
Dragon Quest deixou muitos fãs preoupados no primeiro momento. Eles alegavam duvidar da capacidade do portátil de receber um jogo da magnitude que o jogo deveria ter. Felizmente,
Dragon Quest IX: Sentinels of the Starry Skies alcançou e até ultrapassou todas as maiores expectativas: o jogo é um dos mais complexos RPGs dos últimos tempos, e ainda consegue manter a simplicidade na narrativa e na jogabilidade que são marcantes na série. Ele pode não ter um cenário tão vasto quanto o de
VIII: Journey of the Cursed King por estar na palma de suas mãos, e pode não ter um enredo envolvente e emocionante como o de
V: Hand of the Heavenly Bride, mas é extremamente divertido e recompensante, além de capaz de rivalizar
Pokémon como um dos títulos que ficará mais tempo em atividade no Slot 1 do seu DS, jogue você sozinho ou com amigos. Se é esse o produto da soma entre o melhor da indústria japonesa de games e a vontade de agradar também os jogadores do Ocidente, só nos resta torcer para que as publishers tenham a vontade de tentar a mão nessa equação com mais frequência.