Carregando
análise › wii 
Xenoblade Chronicles
escrita por Pedro Henrique Lutti Lippe

Com o passar do tempo, os diferentes gêneros de jogos evoluem, de forma notável e quase linear. Isso é algo que não acontece com músicas ou filmes. Mas com os games, sim: eles tornam-se mais complexos, mais atraentes, e até mais inteligentes. Para enxergar isso, é só comparar Super Mario Bros. e Super Mario Galaxy. Na realidade, as mudanças são tão rápidas, que causam mudanças extremas até mesmo em curtos espaços de tempo. Dez anos separam, por exemplo, Lords of the Realm de Rome: Total War, ou Quake de Call of Duty 3.

Indo contra essa tendência, porém, há um gênero específico: o dos RPGs japoneses. Estagnada criativamente, a amada categoria de jogos sobreviveu por anos na base da nostalgia, com remakes e o reaproveitamento de conceitos arcaicos, maquiados para a nova geração. Mas há espaço para evolução. Isso é o que prova a Monolith Soft com Xenoblade Chronicles.



Empurrando todos os limites do Wii - uma plataforma popularizada por "jogos rápidos", como Wii Sports, Super Smash Bros. Brawl, Mario Kart Wii e Super Mario Galaxy, com sua estrutura segmentada -, o RPG chega quase como um estrangeiro, cobrando dos jogadores muito mais do que breves momentos de atenção. Massivo, ele requer envolvimento e muito tempo livre, por ter conteúdo o suficiente para preencher literalmente centenas de horas da vida de qualquer fã do gênero. E é importante mencionar: horas úteis de diversão, e não jogadas fora com sequências intermináveis de batalhas aleatórias ou com longas caminhadas por itens que você esqueceu em uma cidade qualquer no início de sua jornada.

A aventura ocorre em um interessante cenário. Na origem, o mundo do jogo consistia apenas em um vasto oceano. Mais tarde, surgiram duas criaturas gigantescas, chamadas Bionis e Mechonis, que travaram uma longa batalha até que, um dia, golpes simultâneos as paralisaram, unidas por suas lâminas. Com o passar do tempo, vida floresceu nos corpos inanimados dos gigantes, e a relação conflituosa entre Bionis e Mechonis foi passada como herança para as civilizações que neles cresceram. Seres robóticos conhecidos como Mechons lançavam constantes investidas contra os humanos, ou Homs, de Bionis - que, como defesa, tinham apenas uma misteriosa espada chamada Monado.

Um ano após o término de uma marcante batalha entre Homs e Mechons que iniciou um hiato no conflito, o jogador assume o controle de Shulk, um garoto de cabelo claro que habita a Colony 9, um refúgio localizado na canela do Bionis. Inteligente e sereno, o protagonista fora dos padrões do gênero tenta levar sua vida tranquilamente ao lado de seus amigos Reyn e Fiora, enquanto estuda o Monado, tentando entender mais sobre seu funcionamento. Um ataque aéreo surpresa por parte dos Mechons, porém, faz com que vidas sejam perdidas, e Shulk sai da cidade com a espada lendária e o objetivo de acabar de uma vez por todas com a ameaça dos estranhos seres.



Em um primeiro momento, a maior parte dos jogadores deve ficar atordoada e confusa com a complexidade de Xenoblade Chronicles - algo engraçado, já que o jogo chega a pegar leve com os iniciantes, introduzindo novas funções de jogabilidade lentamente ao longo das primeiras dez horas. Com o tempo e atenção às realmente úteis mensagens de ajuda e telas de dicas, porém, a quantidade de opções na tela deixa de ser intimidadora, e comandos passam a ser dados com naturalidade.

O sistema de combates do jogo é um de seus maiores pontos fortes. Um híbrido entre o Active Dimension Battle de Final Fantasy XII e conceitos de MMORPGs como
World of Warcraft, ele proporciona batalhas visualmente atraentes e simples, mas acima de tudo, envolventes. Durante elas, o jogador controla um personagem e é auxiliado por outros dois, e deve prestar atenção em seu posicionamento em relação aos oponentes, pois determinados golpes surtem mais efeito quando dados por trás ou pelos lados. O líder do grupo, quando em combate, dá seu ataque basico automaticamente, e fica a cargo do jogador selecionar em uma barra as diferentes "Arts" - habilidades especiais, que podem ser ofensivas, defensivas, ou de suporte. Aqui, não há mana ou SP - apenas cooldowns. Isso significa que, quando ativada, uma Art torna-se indisponível por um tempo, mas pode ser utilizada novamente, sem custo algum, assim que seu botão fica aceso na barra de comandos.

Os inimigos, por sua vez, atacam o seu grupo como fariam em um MMO - mirando em quem eles enxergarem como o alvo mais "ameaçador". Configura-se então o sistema de arquetipos dos RPGs online, que encaixa cada personagem em uma categoria: "DPS", "Healer" ou "Tank". Tanks, como Reyn, possuem mais resistência ou potencial de esquiva e utilizam habilidades que chamam a atenção para si para que os inimigos sempre os ataquem. DPS ("dano por segundo"), como Shulk, são mais frágeis, mas causam mais dano, enquanto os Healers, como a Sharla, ficam responsáveis por utilizar Arts de suporte e de curar seus aliados. Essa estrutura permite que cada personagem tenha um estilo de jogo bem diferente dos outros, e portanto oferece ao jogador a possibilidade de trocar de papel em combate quando seu atual não o divertir mais.



Os parágrafos acima demonstram o básico do sistema de batalhas de Xenoblade. Este, porém, sofre influência de vários outros fatores. Um exemplo: durante os conflitos, os personagens são capazes de interagir entre si. Com o pressionar de um botão, o jogador pode acordar um aliado que esteja adormecido ou soltar mensagens de incentivo. Essas interações dão volume à "Party Gauge", uma barra que é consumida quando um personagem desmaiado "revive" ou quando sequências de Arts chamadas Chain Attacks são ativadas. Outro aspecto interessante é a integração das visões do futuro proporcionadas pelo Monado (sim, a espada diz o futuro) na ação. De vez em quando, Shulk prevê um ataque mais poderoso de seus oponentes, e pode se esforçar para evitá-lo com o uso de Arts de suporte ou cura.

  Enfim: as batalhas são complexas em funcionamento, porém simples em manuseio, e divertem bastante. Como centro da experiência, elas satisfazem. Felizmente, tudo o que está em volta também - a começar pelo mundo. Como se a premissa da teoria de Gaia em formato palpável, que faz de heróis nada mais que formigas caminhando sobre um gigante, não fosse única o suficiente, a Monolith Soft esforçou-se ao máximo para criar algumas das mais interessantes - e vastas - paisagens do gênero. A qualidade das texturas de Xenoblade não é HD, mas áreas como a densa Makna Forest e a atmosférica Satorl Marsh são de impressionar qualquer um por seus méritos artísticos, e nem mesmo todos os corredores de Final Fantasy XIII, um do lado do outro, rivalizam a imensidão da Bionis' Leg, que leva mais de uma hora para ser explorada completamente.

Aí está outro ponto forte de Xenoblade: a exploração. A existência de áreas secretas a serem descobertas e de uma infinidade de quests opcionais, que são em sua maioria no estilo das de MMORPGs (como "Mate X inimigos" ou "Colete X itens"), incentivam o jogador a estar constantemente procurando por passagens de difícil acesso ou por espécies raras de inimigos. Caso real: eu achava que tinha o mapa inteiro de uma área, mas encontrei uma entrara um pouco escondida. Entrei por ela, derrotei alguns insetos, e me deparei com um altar. Na curiosidade, desviei de alguns oponentes e fui pegar um item que estava no fim da plataforma. Eis que, quando eu me aproximo do fim do altar, uma aranha gigantesca 50 níveis mais forte que eu surge aparentemente do nada e me destrói. É, isso mesmo que você leu: eu fui surpreendido por um JRPG.



Depois de me recuperar do susto causado pelo aracnídeo gigante, percebi que meus personagens tinham retornado em segurança para o ponto notável (ou landmark) mais próximo do local de minha queda, sem qualquer penalidade. Isso porque Xenoblade Chronicles se desvencilha da frustração desnecessária causada por alguns conceitos populares de seu gênero, como aquela tela de Game Over que faz o jogador duas horas de progresso pelo descuido de não ter salvo nesse período. Outro bom exemplo disso é o fato de que não é preciso retornar para o NPC que lhe deu uma tarefa após cumprí-la para receber sua recompensa - o processo é automatizado. Correr de volta para a cidade? Nada disso. Abra o mapa, selecione um landmark, e seu grupo é rapidamente teletransportado para lá. A experiência toda gira em torno da diversão constante do jogador, e, nesse sentido, é muito bem-sucedida.

Motivado, o jogador envolve-se mais a cada minuto que passa no mundo do jogo e com os personagens que nele habitam. Em um determinado momento, logo no início da aventura, uma refugiada de uma colônia que foi atacada pelos Mechons pede a ajuda de seu grupo para ilustrar um livro infantil que ela quer criar para animar um triste garoto. Para tal, Shulk e seus companheiros precisam coletar alguns itens para o ilustrador rabugento. O objetivo é simplório, e a recompensa material insignificante - mas ver as relações entre os personagens desenvolvendo-se por meio dos mapas de afinidade (que mostram para o jogador quanto os NPCs gostam uns dos outros) faz daquela frase clichê "um mundo que parece vivo" uma descrição bem útil.

É importante mencionar que envolver-se demais com as quests opcionais traz um ponto negativo: os personagens podem acabar ficando muito mais fortes do que os inimigos e chefes da história "principal", de forma que o nível de desafio dos embates mais importantes para a trama acaba sendo reduzido. Felizmente, para os que se importarem com isso, basta um pouco de controle - são poucos os objetivos opcionais que desaparecem a partir de um ponto no jogo (eles são devidamente identificados com um ícone de relógio no menu), e portanto dá para buscar o 100% e os equipamentos mais poderosos depois de derrotar o último chefe ou então inicar um novo arquivo pelo New Game+.



Levando em consideração o tamanho do jogo e o estilo artístico mais realista, a Monolith Soft merece aplausos pelo que ela conseguiu fazer com o Wii em Xenoblade Chronicles. As já mencionadas imensas áreas do jogo aparecem inteiras na visão do jogador, sem aqueles velhos truques de névoa, e problemas com lentidão são raros. Em cutscenes, as baixas resoluções dos modelos dos personagens ficam aparentes, mas mesmo assim elas, cheias de ação, impressionam pela qualidade das animações.

Enquanto, reprimidos pelas limitações do hardware, os gráficos do jogo já são elogiáveis, os aspectos sonoros deste não são obrigados a enfrentar barreira semelhante. A trilha sonora é fantástica e muito memorável, e as diferentes faixas que a compõem foram muito bem aproveitadas, dando, por exemplo, um clima devidamente bucólico ao ambiente da Frontier Village. Além disso, todos os diálogos em cutscenes foram dublados, e a versão europeia do título oferece ao jogador a opção entre as vozes em inglês britânico e as originais em japonês - sendo que ambas são viáveis e agradáveis aos ouvidos, apesar de os personagens falarem (no caso, gritarem) em excesso durante batalhas.

Como uma espécie de cobertura de chocolate sobre uma excelente sobremesa está a trama do jogo, que é desenvolvida de forma inteligente e em ritmo empolgante, com revelações surpreendentes acontecendo a cada nova área até o excelente clímax. Logo no início da jornada de Shulk, uma grande virada (e a forma como ela é apresentada ao jogador, que já tinha visto trechos dela nas visões do futuro proporcionadas pelo Monado) demonstra o tipo de história que Tetsuya Takahashi quis contar com Xenoblade. Tudo começa com a épica batalha no Sword Valley - e, mesmo assim, a escala da aventura só cresce com o passar dos eventos.



Se você leu o texto até agora, já deve imaginar com que porcentagem de recomendação ele acabará. E não podia ser diferente. Xenoblade Chronicles é um jogo que basicamente pega todas as convenções de seu gênero, as separa entre boas e ruins, e procede jogando fora todas as não satisfatórias e melhorando as positivas. Ele tem tudo: um mundo e personagens interessantes que desviam de clichês, uma história envolvente, um sistema de batalhas divertido e uma estrutura de jogabilidade construída para eliminar frustrações e ser capaz de manter o jogador motivado, sem querer desligar o Wii, por várias horas por vez. Existem pequenos problemas, como o fato de que o minimapa é pouco útil por só mostrar NPCs e objetos quando o jogador já está bem próximo deles, e também como os controles da câmera no combo Wii Remote e Nunchuk é um pouco desconfortável (apesar de ideais no Classic Controller), mas no quadro geral, o pacote completo beira o impecável.

Dizer que Xenoblade Chronicles é um marco que ditará a evolução dos JRPGs no futuro próximo pode ser um exagero, mas ele mostra que há esperança criativa para o gênero. Eliminando conceitos ultrapassados que só atrapalham a diversão e olhando para frente, a Monolith Soft fez o que ninguém mais fez nos últimos anos: o óbvio. E provou que o óbvio é o caminho.




10,0


comentários
Nenhum comentário encontrado.

Apenas usuários cadastrados podem comentar.

Se deseja realizar seu cadastro, clique aqui.

Login de usuário


Lembrar?

análises recentes
Cube Tactics
3ds    4
Blok Drop U
wiiu    2
Inazuma Eleven
3ds    4
The Cave
wiiu    6
Pikmin 3
wiiu    16
Sonic Lost World
wiiu    23