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Sociologia Gamer #1: Games tornam as pessoas violentas?
Postado por Aurélio Galdino

O Switch Brasil está passando por uma fase de transição, pessoas novas entraram, parceiros antigos se foram. Acho que cabe aqui uma pequena introdução ao autor, no caso, eu mesmo. Meu nome é Aurélio Galdino, tenho 25 anos e sou estudante de licenciatura em ciências sociais. Portanto, possuo habilitação para discorrer de assuntos ligados as áreas de sociologia, antropologia e ciências políticas. Eu serei o responsável pela coluna “Sociologia gamer” que terá textos publicados quinzenalmente. O foco é trazer o conhecimento dessas três ciências para analisar o mundo gamer.

Feitas as devidas apresentações voltemos ao tema: games tornam as pessoas violentas?

Esse é um tema que vira e mexe entra em discussão, principalmente quando alguém, assumidamente gamer comete alguma atrocidade contra a humanidade. É comum que as pessoas criem relações de causa e consequência, e a mídia geralmente se apoia nessas polêmicas para colocar mais lenha na fogueira. Eles corroboram com uma linguagem alarmista para uma concepção perigosa para as ciências, o senso comum.

Mas então como a sociologia e a antropologia olham para essas questões? É importante lembrar que essas ciências não se apoiam na análise individual do caso, ou seja, essa análise não vai discorrer sobre questões psicológicas que venham a surgir, muito menos a questão biológica, uma vez que essas ciências, conhecidas como ciências da cultura, descartam que as motivações por detrás desses casos sejam inatas aos indivíduos, ou que tenham qualquer traço biológico que possa levar o indivíduo a cometer crimes (essa inclusive é uma discussão em voga entre a biologia e a sociologia que culmina em debates acalorados de ambos os lados).

 


Pois bem, como apoio para análise utilizarei um teórico chamado Theodor Adorno, ele escreveu uma das obras mais importantes para análise da indústria cultural chamado Dialética do esclarecimento. Portanto já deixo claro que esse texto se apoiará em dialética marxista, cunhada cientificamente como sociologia dialética. Ou seja, é uma sociologia que olha um movimento espiral onde dois opostos entram em conflito e culminam em uma relação de tese, antítese e síntese. Ou seja, duas realidades em conflito que em seu fim criam uma terceira realidade.

 

As realidades em conflito são os indivíduos que jogam videogames com a semiótica narrativa em torno dos games que, em tese, criam um novo indivíduo em sua interação. Ufa, eu sei que essa é uma introdução longa, mas necessária para a compreensão desse texto.

Para Adorno, a indústria cultural serve como um meio de transmissão das ideologias (que aqui é entendida como a maneira como a classe dominante pensa). Ou seja, por meio da indústria cultural há um processo conhecido como violência simbólica (termo cunhado por Bourdieu) onde as classes dominadas tomam para si as aspirações da classe dominante.

Nesse processo, diferentemente do que uma análise vulgar cunharia, não há qualquer ilusão em torno do que é mostrado na TV ou internet. O que acontece é que a indústria cultural faz com que os indivíduos sofram ao não atingirem determinados padrões expostos pela mídia, você não vai se iludir com um padrão de vida que não pode atingir, mas você sofrerá muito com o fato de saber que nunca poderá atingi-lo, pois aquele padrão exposto é o ideal

.

 

Pois bem, nos games há uma conexão um tanto diferente. Não há qualquer alusão que o mundo dos games possa ser real e, portanto, não há como idealizar algo que é reconhecidamente irreal, fictício. Ainda assim, os discursos, mesmo que no campo da semiótica são de grande penetração. Um jogador não irá se iludir e imaginar que pode matar pessoas como faz em seus jogos porque não há a ilusão de que aquilo seja uma representação do real.

O que pode acontecer, e isso é comum em jogos de guerra, é abrir um espaço para visões estereotipadas do tipo: os americanos são os heróis da segunda guerra mundial e defendiam um estilo de vida livre e etc... Enfim, no máximo, o que os games podem fazer é criar narrativas históricas estereotipadas e mudarem os indivíduos no campo das ideias.

No final o que fica claro é que filmes, jogos, programas de TV não tem poder para criar mudanças de comportamento tão drásticas ao ponto de tornarem pessoas violentas, ainda que por vezes possa orientar as narrativas de seus jogadores. O que pode tornar qualquer pessoa violenta é uma má socialização do indivíduo. Ou seja, a maneira como ensinamos os valores, as crenças, as interações sociais que temos, a educação que nos é dada nas escolas (que chamamos de socialização sistemática) e etc...

É preciso ficar claro, que sim, jogos também são espaços de socialização, mas não é o jogo em si que te deixará violento, mas como se dão suas interações sociais ao longo da vida. Inclusive, pesquisas recentes da American Psychologist Association indicam que jogos, ao contrário do que o senso comum diz, são estímulos à socialização.

Por outro lado, é preciso também deixar algumas contra indicações: a exposição exagerada ao jogo pode causar inúmeros problemas, como o vício, tendinites, problemas de visão e sempre respeitem a faixa indicativa. Estudos comprovam que crianças de até 13 anos não conseguem fazer a distinção entre o fictício e o real e tendem, ao serem expostas a jogos violentos, a terem fantasias e comportamentos violentos, e ainda assim, são casos isolados e todas as pesquisas apontam para a melhora em inúmeras habilidades como a da memória e maior facilidade na resolução de problemas.

Games tornam as pessoas violentas?

Resposta: Não, jogos por si só não deixam as pessoas violentas. A violência é parte de uma complexa rede de fatores e não pode ser explicada somente pela exposição aos jogos.

Essa é a primeira edição do Sociologia gamer. Gostaram? Deixem sugestões nos comentários.

Quer dar uma aprofundada? Te liga nessas fontes:


http://www.marketingegames.com.br/videogames-podem-estimular-e-melhorar-a-interacao-social-entre-as-pessoas/
http://www.apa.org/pi/families/review-video-games.pdf
https://nupese.fe.ufg.br/up/208/o/fil_dialetica_esclarec.pdf

E no Sociologia gamer #2: O que é a mana?

COMENTáRIOS • site
Edu
06/07/2017 às 18:05
Bom artigo. É bom ver que isso está voltando ao site.

@Aurèle Galdino Marilena Chauí é o "Olavo de Carvalho da esquerda", uma pessoa completamente delirante, que defende teorias conspiracionais ridículas e radicais, além de ser seguida por minions que se recusam a questioná-la.
Lelo Galdino
06/07/2017 às 15:49
@McWolf vi e eu entendi o que ela quis dizer. Em muitas coisas ela tem razão haha. Outra são exageros. É que esse conceito de classe média é meio complicado. Qualquer dia eu explico.
McWolf
06/07/2017 às 13:27
"Muitos usuários desse site são exemplos clássicos dessa teoria. Insultam, difamam e atacam outras pessoas de forma totalmente banal e gratuita apenas por causa de amor a marcas e opiniões divergentes".

Olha quem fala. Você ofende e quando não aguenta pede água pra moderação.

@Aurèle Galdino: você viu as declarações dela insultando a classe média?
Lelo Galdino
06/07/2017 às 11:35
Gente, acho que vocês tem de separar as coisas. Eu me utilizei de um método de análise. Métodos científicos não são pertencentes a nenhum campo político. Sobre o que foi dito na análise sobre o sofrimento que a indústria cultural causa ao indivíduo ao inculcar nele ideias, normas, padrões, meios de vida que não pertencem ao indivíduo como únicos, melhores, bons, essenciais, não são palavras minhas, estou reproduzindo Adorno. Junto com Debord, Bourdieu, Foulcault e outros ele é um clássico em questões da indústria cultural. Dentro do que eu me propus a escrever ele era o autor da sociologia que tinha a obra, que ao meu ver, tem um teor crítico bastante bem fundamentado. O livro está nas referências. Ele é um pouco extenso e difícil de ler, mas recompensa o leitor.
BrunoCesar
06/07/2017 às 10:19
Amei que esta coluna ressurgiu no site.
Abrir formas de debate, sobretudo em relação à violência no jogos, em nosso meio é ótimo e nos dá respaldo para que possamos argumentar de que jogos violentos não influenciam em nosso comportamento.
Acredito que a violência nos jogos é evidentemente pela dinâmica proporcionada estimulando o jogador ao raciocínio lógico diante de varias situações, tendo que tomar decisões abruptamente, ou seja, torna-se em segundo (ou terceiro) plano sem ao menos nos dar conta.
Nebel Spieluhr
06/07/2017 às 09:58
"Daqui a pouco terá política e esquerdismo no site. Podem anotar."

Pensei nisso logo que vi o título, depois ao ver ciência política e Marxismo, não tive mais dúvidas, pra completar teve o "te faz sofrer por impor um padrão ideal inalcansacel pela elite opressora e capitalista".

Mas sério, o texto está bem escrito, se não ficar fazendo propaganda esquerdista já está de bom tamanho.
Patolouco
06/07/2017 às 09:33
Muitos usuários desse site são exemplos clássicos dessa teoria. Insultam, difamam e atacam outras pessoas de forma totalmente banal e gratuita apenas por causa de amor a marcas e opiniões divergentes.
denis_timao
06/07/2017 às 08:54
Ótimo texto Aurélio, parabéns e espero que faça mais dessa sessão.

Quanto ao tópico estou no time do Al-Rashid.
wii-ner
05/07/2017 às 23:41
Parabéns pela iniciativa de trazer de volta essa sessão ao site, espero por novos conteúdos próprios.
dns
05/07/2017 às 22:02
Primeiro fico feliz com a volta de colunas no Wii-Brasil, acho conteúdo próprio uma ótima forma pra vir e entrar no site. Para ver notícias da Nintendo fica difícil concorrer com Nintendo Everything e GoNintendo

Bem agora sobre o texto em si, como já disseram parece que você descreveu alguns assuntos teóricos de Sociologia, mas parece que na parte argumentativa não usou esses conceitos (ou não explicitou o uso desses assuntos), o que fez com que a explicação inicial se fizesse desnecessária técnica para o leitor.

Embora goste de sociologia do que estudei na faculdade e estou relembrando um pouco no Crash Course (https://youtu.be/ylXVn-wh9eQ?list=PL8dPuuaLjXtMJ-AfB_7J1538YKWkZAnGA), acho que utilização mais leve de conceitos seja melhor para os leitores.

Enfim, espero que questões como protagonistas que e fujam do padrão de gênero, preferência sexual, raça, etc, sejam tratada em algum artigo.
Lelo Galdino
05/07/2017 às 19:16
@TonyAlvein eu estava discutindo com um leitor psicólogo sobre isso. Essa é uma análise das manifestações coletivas, não quero também confundir o leitor com um suposto determinismo sociológico muito rígido.
Lelo Galdino
05/07/2017 às 19:14
@Mc Wolf eu ri com Marilena Chawii Brasil XD... Sobre a autora, ela tem bons livros de análise pedagógica... Por mais que ela dê umas viajadas...
TonyAlvein
05/07/2017 às 18:02
Em que pese a análise do ponto de vista sociológico e a conclusão da qual discordo parcialmente, achei interessante a coluna (embora tema que a mesma possa um dia seguir por caminhos político-ideoogicamente enviesados).
Só colocaria um adendo: se os jogos não são por si só causadores de comportamento violento (o que concordo), se analisarmos os demais fatores desse evento e, especialmente, como a violência representada nos games pode ser um catalizador desses efeitos, acho que o assunto é um pouco mais extenso do que abordamos aqui (especialmente se começarmos a abordar o aspecto psicológico da questão).

Em tempo: fiquei feliz demais de não ler um análogo do "Joguei mario a vida toda e não pisei em tartarugas". Esse é o argumento mais tolo que pode existir nessa discussão.

Parabéns pela coluna e espero que continue um bom trabalho.
McWolf
05/07/2017 às 16:33
"Daqui a pouco terá política e esquerdismo no site. Podem anotar."

marilena chawii brasil
está tudo tão claro.
Hinz
05/07/2017 às 15:58
Daqui a pouco terá política e esquerdismo no site. Podem anotar.
Lelo Galdino
05/07/2017 às 15:29
@Nior, seria interessante sim! Vou tentar arranjar o jogo e escrevo =)
McWolf
05/07/2017 às 15:06
O que é a mana?

tales of mana
antigo membro do site
Think
05/07/2017 às 14:43
@Aurèle Galdino: Fica tranquilo, não precisa ficar se pautando na forma de escrever não, o português é um idioma fantástico e tem que ser usado sim. Ler algo que nos desafia um pouco nos ajuda a evoluir.
Nior
05/07/2017 às 14:41
Auréle, você acha que rola uma análise de Assassins Creed Syndicate pelo ponto de vista historiográfico e/ou pela visão marxista? Eu nunca joguei, apesar de ser o único AC que eu tenho vontade de jogar, mas sempre quis saber até que ponto eles puderam mostrar os contrastes da sociedade industrial e os conflitos trabalhistas.
Al-Rashid
05/07/2017 às 14:28
SIm. E eu mato quem discordar de mim.

Lelo Galdino
05/07/2017 às 13:54
@Nior isso me lembrou também de que deveria ter deixado mais claro que existem violências de vários tipos e níveis... Mas deixo isso pra uma próxima!
Lelo Galdino
05/07/2017 às 13:52
@Nior, é verdade, isso mesmo. Os jogos fazem parte da sociedade, não são os jogos o problema é a sociedade e a maneira como ela se estrutura. Essas questões de xenofobia, homofobia e etc... se dão não por problemas nos jogos mas por um problema de socialização que é a falta de reconhecimento do outro, de uma falta de alteridade. Enfim, são os valores da sociedade que acabam se reproduzindo nas comunidades dos jogos.

@Think obrigado pelo toque, desculpa pelo sociologuês. Tem um autor chamado Wright Mills, americano, que faz uma crítica enorme aos sociólogos que ficam utilizando de sociologuês, vou me pautar mais na maneira como ele escrevia esses termos, e sempre que possível deixar mais claro do que se tratam!
Nior
05/07/2017 às 13:36
Achei importante destacar o aspecto do videogame (e das mídias em geral) enquanto discurso político capaz de alienar opiniões. Faltou só usar alguma foto do CoD WW2 ali.

Todavia, eu também acho interessante ressaltar que nem toda ideia aplicada a essas mídias é necessariamente ressonante na comunidade, e um grande exemplo disso é a onda de xenofobia, machismo, racismo, etc, que se encontra nas comunidades online mesmo de jogos que não incentivam nem sequer de forma subjetiva esse tipo de comportamento (como Lol e Minecraft). Nesse caso, os games na verdade sofrem como bode expiatório de algo bem maior na mídia de massas.
Think
05/07/2017 às 13:30
Legal ver as colunas ressurgirem no site!
Parece que realmente a equipe do site esta se reestruturando...
Curti o tema (extremamente polêmico) e o texto, apesar de alguns termos técnicos mais difíceis de compreender, rs. Foi bem abordado e, com um olhar de um leigo no assunto, aparentemente bem embasado.
Espero ver mais conteúdo surgindo!
Parabéns pelo texto!
Arlo Schwarzenegger
05/07/2017 às 13:08
"Sociologia Gamer." É, pirralhos, esse site finalmente chegou ao fundo do poço. É só uma questão de tempo até o Catingão ser abandonado de vez. Minha vitória está próxima. Já podem ir procurando outro recinto para poluir com a presença de vocês. Vejo vocês lá.

Que fase, amiibos. Que fase.

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