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Sociologia gamer #2: O que é a mana?
Postado por Aurélio Galdino

Gostaria de começar a coluna esclarecendo alguns pontos que ficaram meio soltos sobre a coluna em si. Não tenham medo quanto a sociologia e os conhecimentos produzidos pelas ciências sociais. Eu sei que é difícil não ter medo quando vivemos em um contexto de polarização política de que essa coluna seja utilizada como veículo para trazer posições partidárias (no sentido de reproduzir posições favoráveis a partidos políticos, afinal, todas as posições tomam partido de algo, não existe informação neutra), ou que valorizem posições de esquerda e reproduzam um “esquerdismo”. Não é e nunca será essa a intenção.

É preciso deixar claro que as posições dessa coluna são limitadas à literatura que eu li, minhas impressões pessoais sobre o tema, mas sempre buscarei utilizar-me de um método de análise que deixe claro como eu cheguei às minhas conclusões e sempre respeitarei, assim como toda a Equipe Switch Brasil, os posicionamentos divergentes. A ideia é tornar essa coluna um espaço para o debate de ideias, com muito respeito de todos os lados. Beleza?

Mas o que é mana? Para responder essa questão utilizo-me de Marcel Mauss, autor do livro “Ensaio sobre a dádiva”. Nesse livro há um capítulo fundamental chamado “Esboço de uma Teoria Geral da Magia” que vai nos explicar o que é mana!

A mana nos jogos é utilizada como energia mágica, é por meio de seu uso que invocamos monstros, magias, poderes ancestrais e todo tipo de habilidade mágica. O conceito aparece em tudo, direta ou indiretamente. No Qi do Dragon Ball, na Força de Star Wars, nos terrenos de Magic: The Gathering, em RPG’s (principalmente em turnos). Ou seja, é algo corriqueiro na cultura gamer/geek.

Mana, conforme Marcell Mauss, o “pai” da antropologia francesa, é o substantivo, o verbo e o adjetivo, ou seja, é quem faz, o que faz e sua representação. A mana e suas variações estão muito ligadas a um objeto, animal, e até mesmo na linguagem. E diferente do que se pensa, o conceito de mana não está restrito aos povos xamãs, mesmo que esses preservem a cultura intocada, ou seja, a tradição de colocar o espírito de seus mortos em objetos, lugares e animais.

Hoje podemos perceber um “poder místico” nas coisas, quando por exemplo, temos uma cueca da sorte, ou o poder em torno do dinheiro, quando desejamos algo bom e sopramos a velinha de aniversário. Muito provavelmente, você já tenha ouvido falar que “fazer um presente é melhor do que comprar”.

Esse saber, que é passado na forma de tradição, são exemplos de como a estrutura do conceito de mana ainda persiste na nossa atualidade, ainda que de forma um pouco diferente do que eram nas tribos primitivas. Outro exemplo, agora ligado à religião, é fazer a cruz ao passar em frente de uma igreja católica. Há todos os critérios, há o sujeito que realiza uma ação e um modo como essa ação deve ser feita, e uma representação, o símbolo da cruz.

O interessante no mundo dos games é que, mesmo que não representado com um contador de mana, podemos perceber a influência dessa lógica que dá poder às coisas em games como The Legend of Zelda, seja com a Ocarina, seja com a própria Triforce ou até mesmo a Master Sword. Mario também tem influência dessa lógica em seus Power-Ups, geralmente representações de animais, fungos e plantas.

A mana para o autor em questão é mais do que um ritual, é a maneira como as sociedades se mantêm coesas, ou seja, como pessoas se mantêm juntas, porque elas cooperam para a formação de algo tão complexo como a vida em sociedade (isso por vezes não quer dizer que seja para o bem comum).

O que se pode supor, é que no mundo dos jogos, essa lógica, de mana como produtor da coesão social, é, por exemplo, que as tradições em Zelda, Final Fantasy e etc... fazem com que as personagens possuam sentido para suas vidas. Sentido que não encontramos, por exemplo, em representações do universo cotidiano de Grand Theft Auto. Digo isso no sentido de que, nas sociedades modernas, como bem cunhou Max Weber, conforme nosso pensamento se torna racionalizado, há uma tendência de que os povos se afastem de respostas místicas, ele chamou esse processo de “desencantamento do mundo”, mas isso a gente deixa para uma próxima.



O que é mana? Resposta: Mana é a força mágica que gira em torno de um sujeito, que pratica uma ação, de uma forma determinada para produzir magia que é o resultado dessa ação. Essa magia (ou tradição) possui um valor simbólico que é traduzido de forma física, seja em animais, itens (falando em jogos) e é o fator que torna, para a teoria maussiana, as sociedades coesas. Há muitas representações da mana nos jogos e elas seguem, em sua maioria essa estrutura de uma representação simbólica de um lugar, objeto, animal e etc...

 

E no próximo Sociologia Gamer: Os Pokémon tem cultura?

Quer ir mais afundo? Te liga nessas fontes:

https://monoskop.org/images/f/f2/Mauss_Marcel_Sociologia_e_antropologia_2003.pdf

http://www.webartigos.com/artigos/magia-mana-aspectos-centrais-a-partir-das-obras-de-durkheim-e-mauss/16492/
 
Gostaram? Deixem sugestões nos comentários e até a próxima!
COMENTáRIOS • site
Nior
21/07/2017 às 15:15
Aqui foi o único lugar do site onde o Taura deixou uma postagem séria RIP

Ansioso pelo próximo, pois apesar de mana ser algo que vemos muito em jogos não tenho muito interesse por misticismo.
Lelo Galdino
21/07/2017 às 14:48
Isso também @Pato... Mas não é puramente alma... Ainda mais se formos comparar todas as tradições de mana... Existem culturas que traduzem como energia.

Sobre a teoria maussiana em Perfume, eu teria de rever com o conceito em mente, mas pelo que eu lembro tem haver com um outro conceito de Mauss que é a "dádiva". É super interessante também, eu deixei em PDF um livro que fala desses dois conceitos mana e dádiva.
Patolouco
21/07/2017 às 12:59
Entendo que nos games é vista como alma.

Recomendo também o filme Perfume: A História de um Assassino, ele é meio baseado na teoria desse Marcel Mauss.
Guyoshi
20/07/2017 às 22:23
Ótimo artigo. Nunca tinha parado para entender este lado do que conhecemos como mana.
Lelo Galdino
20/07/2017 às 20:26
Isso mesmo Marti... Outro exemplo é a alquimia... Ela é uma maneira de ver o mundo a partir da magia... A pedra filosofal é sua representação.
Marti
20/07/2017 às 17:09
Deve ser algo parecido com a ambrósia, o manjar divino consumido pelos seres olímpicos adoradores da Deusa.

OFF topic : E sem psicodelia barata .

Mana é o velho tesão em desatino !
Domucacto-Kuno
20/07/2017 às 17:02
gíria pra "irmã".

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